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O silêncio dos Backrooms: uma noite fria, vazia e cheia de presença

Era um sábado frio em Anápolis.

Cheguei alguns minutos atrasado para a sessão das 19h20. Acabei comprando o ingresso para a sessão das 21h45. Até chegar o horário da sessão que havia comprado o ingresso, caminhei sem rumo definido pelo shopping. Fiz algumas compras, atravessei corredores, observei vitrines e, como terapeuta, permiti que meu olhar se transformasse em instrumento de investigação.

Gosto de observar o mundo.

Não de forma invasiva, mas como quem contempla pequenos universos em movimento. Casais discutindo em voz baixa, adolescentes rindo em grupos, trabalhadores encerrando mais um dia, pessoas caminhando olhando para o celular como se carregassem mundos inteiros dentro de telas iluminadas.

Depois veio o filme: Backrooms.

E uma das primeiras coisas que me chamou atenção não estava na tela.

Estava na sala.

Quase não havia risadas. Não havia comentários. Não havia o tradicional barulho de pipocas sendo remexidas freneticamente.

Havia silêncio.

Um silêncio denso.

Como se o filme estivesse fazendo algo raro em nossa época: obrigando as pessoas a sentir em vez de reagir.

Os Backrooms não são apenas corredores infinitos. Eles representam um estado psicológico muito conhecido: o estranhamento. A sensação de estar em um lugar familiar e, ao mesmo tempo, profundamente desconhecido.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), podemos pensar nos Backrooms como uma metáfora dos pensamentos automáticos que se repetem em ciclos. Corredores mentais onde procuramos saídas que parecem nunca chegar.

Existe inclusive uma cena que lembra bastante uma técnica conhecida como role play ou dramatização terapêutica. Nela, personagens confrontam aspectos de si mesmos por meio do diálogo, algo muito utilizado em consultório para ressignificar crenças, emoções e padrões de comportamento.

Mas olhando pela lente da Psicologia Corporal, algo ainda mais interessante aparece.

Os Backrooms parecem um corpo desconectado.

Corredores sem direção lembram fluxos de energia interrompidos. Portas que não levam a lugar algum lembram tensões crônicas que impedem movimentos espontâneos da vida. O personagem parece frequentemente existir em estado de alerta, como alguém cujo organismo permanece preso na resposta de sobrevivência.

Wilhelm Reich falava das couraças corporais: tensões físicas que congelam emoções não expressas. Nos Backrooms, o próprio cenário parece uma gigantesca couraça. Tudo está parado. Tudo está retido. Tudo está esperando algo acontecer.

E talvez por isso o filme incomode tanto.

Ele não nos mostra apenas um lugar perdido.

Ele nos mostra a experiência corporal da desconexão.

Quando a sessão terminou, o filme não acabou.

Ele continuou do lado de fora.

Ao sair, já passava da meia-noite.

A praça de alimentação estava praticamente vazia.

As mesas abandonadas pareciam vestígios arqueológicos de um dia que havia terminado. As luzes continuavam acesas, mas já não serviam para ninguém.

Aquele espaço, poucas horas antes cheio de vozes, agora parecia um cenário liminal.

Quase um Backroom.

Caminhei pelo estacionamento.

O frio da madrugada havia tomado conta do ambiente. Havia poucos carros. Poucas pessoas. Muito espaço vazio.

Em determinado momento, um veículo do programa de segurança local, Linha de Frente, passou próximo. Algo chamou minha atenção: algo cai de dentro dele parecendo a própria traseira e fica no chão, a traseira do carro parecia baixa, afundada, como se carregasse um peso invisível. O policial pára e pega de volta aquele enorme item escuro que de longe não consegui identificar.

Talvez fosse apenas um detalhe mecânico.

Mas naquela atmosfera, tudo parecia ganhar significado simbólico.

Todos nós carregamos algo.

Responsabilidades.

Histórias.

Lutos.

Expectativas.

Pesos invisíveis que fazem nossas próprias suspensões cederem um pouco com o passar dos anos.

A noite continuava escura.

O estacionamento parecia maior do que realmente era.

O vazio ampliava as distâncias.

Na Psicologia Corporal, existe uma ideia importante: quando o ambiente silencia, começamos a ouvir aquilo que normalmente abafamos com movimento constante.

Talvez por isso lugares vazios causem tanto impacto.

Eles devolvem nossa própria presença.

Na volta de Uber, a cidade parecia suspensa.

Prédios escuros.

Poucas janelas iluminadas.

Poucos carros.

Pouca vida aparente.

Até que, em frente a um prédio praticamente vazio, vi um casal sentado em um banco.

Namorando.

Conversando.

Existindo.

Foi uma imagem simples.

Mas profundamente humana.

Em meio ao concreto, ao silêncio, aos corredores, aos estacionamentos e às luzes artificiais, havia duas pessoas compartilhando presença.

Talvez essa seja uma das respostas possíveis aos Backrooms.

O oposto do vazio não é a multidão.

É o encontro.

Os Backrooms nos mostram corredores infinitos onde ninguém nos encontra.

A vida real, às vezes, nos oferece um banco diante de um prédio vazio e duas pessoas lembrando que ainda existe vínculo.

Ao final daquela madrugada, fiquei com a sensação de que o filme havia extrapolado a tela.

Os corredores continuaram no shopping vazio.

Na praça de alimentação silenciosa.

No estacionamento escuro.

Na cidade adormecida.

E talvez também dentro de mim.

Mas, diferente dos personagens perdidos nos Backrooms, eu tinha uma saída.

Voltar para casa.

E levar comigo a lembrança de que, por mais estranhos que sejam os corredores que atravessamos, a presença humana continua sendo uma das formas mais poderosas de encontrar o caminho de volta.