{"id":453,"date":"2026-06-01T21:13:07","date_gmt":"2026-06-01T21:13:07","guid":{"rendered":"https:\/\/terapeutajosemaria.com.br\/blog\/?p=453"},"modified":"2026-06-01T21:26:11","modified_gmt":"2026-06-01T21:26:11","slug":"o-silencio-dos-backrooms-uma-noite-fria-vazia-e-cheia-de-presenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/terapeutajosemaria.com.br\/blog\/2026\/06\/01\/o-silencio-dos-backrooms-uma-noite-fria-vazia-e-cheia-de-presenca\/","title":{"rendered":"O sil\u00eancio dos Backrooms: uma noite fria, vazia e cheia de presen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-456 aligncenter\" src=\"https:\/\/terapeutajosemaria.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/filme-backrooms-anapolis-cinema-terapia-psicologia-300x200.webp\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/terapeutajosemaria.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/filme-backrooms-anapolis-cinema-terapia-psicologia-300x200.webp 300w, https:\/\/terapeutajosemaria.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/filme-backrooms-anapolis-cinema-terapia-psicologia-768x511.webp 768w, https:\/\/terapeutajosemaria.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/filme-backrooms-anapolis-cinema-terapia-psicologia-624x416.webp 624w, https:\/\/terapeutajosemaria.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/filme-backrooms-anapolis-cinema-terapia-psicologia.webp 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p data-start=\"73\" data-end=\"104\">Era um s\u00e1bado frio em An\u00e1polis.<\/p>\n<p data-start=\"106\" data-end=\"442\">Cheguei alguns minutos atrasado para a sess\u00e3o das 19h20. Acabei comprando o ingresso para a sess\u00e3o das 21h45. At\u00e9 chegar o hor\u00e1rio da sess\u00e3o que havia comprado o ingresso, caminhei sem rumo definido pelo shopping. Fiz algumas compras, atravessei corredores, observei vitrines e, como terapeuta, permiti que meu olhar se transformasse em instrumento de investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p data-start=\"444\" data-end=\"470\">Gosto de observar o mundo.<\/p>\n<p data-start=\"472\" data-end=\"757\">N\u00e3o de forma invasiva, mas como quem contempla pequenos universos em movimento. Casais discutindo em voz baixa, adolescentes rindo em grupos, trabalhadores encerrando mais um dia, pessoas caminhando olhando para o celular como se carregassem mundos inteiros dentro de telas iluminadas.<\/p>\n<p data-start=\"759\" data-end=\"794\">Depois veio o filme: <strong data-start=\"780\" data-end=\"793\">Backrooms<\/strong>.<\/p>\n<p data-start=\"796\" data-end=\"864\">E uma das primeiras coisas que me chamou aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava na tela.<\/p>\n<p data-start=\"866\" data-end=\"881\">Estava na sala.<\/p>\n<p data-start=\"883\" data-end=\"1005\">Quase n\u00e3o havia risadas. N\u00e3o havia coment\u00e1rios. N\u00e3o havia o tradicional barulho de pipocas sendo remexidas freneticamente.<\/p>\n<p data-start=\"1007\" data-end=\"1022\">Havia sil\u00eancio.<\/p>\n<p data-start=\"1024\" data-end=\"1042\">Um sil\u00eancio denso.<\/p>\n<p data-start=\"1044\" data-end=\"1151\">Como se o filme estivesse fazendo algo raro em nossa \u00e9poca: obrigando as pessoas a sentir em vez de reagir.<\/p>\n<p data-start=\"1153\" data-end=\"1363\">Os Backrooms n\u00e3o s\u00e3o apenas corredores infinitos. Eles representam um estado psicol\u00f3gico muito conhecido: o estranhamento. A sensa\u00e7\u00e3o de estar em um lugar familiar e, ao mesmo tempo, profundamente desconhecido.<\/p>\n<p data-start=\"1365\" data-end=\"1576\">Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), podemos pensar nos Backrooms como uma met\u00e1fora dos pensamentos autom\u00e1ticos que se repetem em ciclos. Corredores mentais onde procuramos sa\u00eddas que parecem nunca chegar.<\/p>\n<p data-start=\"1578\" data-end=\"1865\">Existe inclusive uma cena que lembra bastante uma t\u00e9cnica conhecida como <strong data-start=\"1651\" data-end=\"1664\">role play<\/strong> ou dramatiza\u00e7\u00e3o terap\u00eautica. Nela, personagens confrontam aspectos de si mesmos por meio do di\u00e1logo, algo muito utilizado em consult\u00f3rio para ressignificar cren\u00e7as, emo\u00e7\u00f5es e padr\u00f5es de comportamento.<\/p>\n<p data-start=\"1867\" data-end=\"1955\">Mas olhando pela lente da <strong data-start=\"1893\" data-end=\"1916\">Psicologia Corporal<\/strong>, algo ainda mais interessante aparece.<\/p>\n<p data-start=\"1957\" data-end=\"2000\">Os Backrooms parecem um corpo desconectado.<\/p>\n<p data-start=\"2002\" data-end=\"2306\">Corredores sem dire\u00e7\u00e3o lembram fluxos de energia interrompidos. Portas que n\u00e3o levam a lugar algum lembram tens\u00f5es cr\u00f4nicas que impedem movimentos espont\u00e2neos da vida. O personagem parece frequentemente existir em estado de alerta, como algu\u00e9m cujo organismo permanece preso na resposta de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p data-start=\"2308\" data-end=\"2540\">Wilhelm Reich falava das coura\u00e7as corporais: tens\u00f5es f\u00edsicas que congelam emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o expressas. Nos Backrooms, o pr\u00f3prio cen\u00e1rio parece uma gigantesca coura\u00e7a. Tudo est\u00e1 parado. Tudo est\u00e1 retido. Tudo est\u00e1 esperando algo acontecer.<\/p>\n<p data-start=\"2542\" data-end=\"2583\">E talvez por isso o filme incomode tanto.<\/p>\n<p data-start=\"2585\" data-end=\"2628\">Ele n\u00e3o nos mostra apenas um lugar perdido.<\/p>\n<p data-start=\"2630\" data-end=\"2682\">Ele nos mostra a experi\u00eancia corporal da desconex\u00e3o.<\/p>\n<p data-start=\"2684\" data-end=\"2729\">Quando a sess\u00e3o terminou, o filme n\u00e3o acabou.<\/p>\n<p data-start=\"2731\" data-end=\"2761\">Ele continuou do lado de fora.<\/p>\n<p data-start=\"2763\" data-end=\"2797\">Ao sair, j\u00e1 passava da meia-noite.<\/p>\n<p data-start=\"2799\" data-end=\"2848\">A pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o estava praticamente vazia.<\/p>\n<p data-start=\"2850\" data-end=\"2996\">As mesas abandonadas pareciam vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos de um dia que havia terminado. As luzes continuavam acesas, mas j\u00e1 n\u00e3o serviam para ningu\u00e9m.<\/p>\n<p data-start=\"2998\" data-end=\"3081\">Aquele espa\u00e7o, poucas horas antes cheio de vozes, agora parecia um cen\u00e1rio liminal.<\/p>\n<p data-start=\"3083\" data-end=\"3101\">Quase um Backroom.<\/p>\n<p data-start=\"3103\" data-end=\"3132\">Caminhei pelo estacionamento.<\/p>\n<p data-start=\"3134\" data-end=\"3242\">O frio da madrugada havia tomado conta do ambiente. Havia poucos carros. Poucas pessoas. Muito espa\u00e7o vazio.<\/p>\n<p data-start=\"3244\" data-end=\"3457\">Em determinado momento, um ve\u00edculo do programa de seguran\u00e7a local, <strong data-start=\"3311\" data-end=\"3330\">Linha de Frente<\/strong>, passou pr\u00f3ximo. Algo chamou minha aten\u00e7\u00e3o: algo cai de dentro dele parecendo a pr\u00f3pria traseira e fica no ch\u00e3o, a traseira do carro parecia baixa, afundada, como se carregasse um peso invis\u00edvel. O policial p\u00e1ra e pega de volta aquele enorme item escuro que de longe n\u00e3o consegui identificar.<\/p>\n<p data-start=\"3459\" data-end=\"3499\">Talvez fosse apenas um detalhe mec\u00e2nico.<\/p>\n<p data-start=\"3501\" data-end=\"3566\">Mas naquela atmosfera, tudo parecia ganhar significado simb\u00f3lico.<\/p>\n<p data-start=\"3568\" data-end=\"3594\">Todos n\u00f3s carregamos algo.<\/p>\n<p data-start=\"3596\" data-end=\"3614\">Responsabilidades.<\/p>\n<p data-start=\"3616\" data-end=\"3626\">Hist\u00f3rias.<\/p>\n<p data-start=\"3628\" data-end=\"3634\">Lutos.<\/p>\n<p data-start=\"3636\" data-end=\"3649\">Expectativas.<\/p>\n<p data-start=\"3651\" data-end=\"3744\">Pesos invis\u00edveis que fazem nossas pr\u00f3prias suspens\u00f5es cederem um pouco com o passar dos anos.<\/p>\n<p data-start=\"3746\" data-end=\"3772\">A noite continuava escura.<\/p>\n<p data-start=\"3774\" data-end=\"3826\">O estacionamento parecia maior do que realmente era.<\/p>\n<p data-start=\"3828\" data-end=\"3859\">O vazio ampliava as dist\u00e2ncias.<\/p>\n<p data-start=\"3861\" data-end=\"4016\">Na Psicologia Corporal, existe uma ideia importante: quando o ambiente silencia, come\u00e7amos a ouvir aquilo que normalmente abafamos com movimento constante.<\/p>\n<p data-start=\"4018\" data-end=\"4070\">Talvez por isso lugares vazios causem tanto impacto.<\/p>\n<p data-start=\"4072\" data-end=\"4109\">Eles devolvem nossa pr\u00f3pria presen\u00e7a.<\/p>\n<p data-start=\"4111\" data-end=\"4155\">Na volta de Uber, a cidade parecia suspensa.<\/p>\n<p data-start=\"4157\" data-end=\"4173\">Pr\u00e9dios escuros.<\/p>\n<p data-start=\"4175\" data-end=\"4201\">Poucas janelas iluminadas.<\/p>\n<p data-start=\"4203\" data-end=\"4217\">Poucos carros.<\/p>\n<p data-start=\"4219\" data-end=\"4239\">Pouca vida aparente.<\/p>\n<p data-start=\"4241\" data-end=\"4324\">At\u00e9 que, em frente a um pr\u00e9dio praticamente vazio, vi um casal sentado em um banco.<\/p>\n<p data-start=\"4326\" data-end=\"4336\">Namorando.<\/p>\n<p data-start=\"4338\" data-end=\"4350\">Conversando.<\/p>\n<p data-start=\"4352\" data-end=\"4362\">Existindo.<\/p>\n<p data-start=\"4364\" data-end=\"4387\">Foi uma imagem simples.<\/p>\n<p data-start=\"4389\" data-end=\"4414\">Mas profundamente humana.<\/p>\n<p data-start=\"4416\" data-end=\"4553\">Em meio ao concreto, ao sil\u00eancio, aos corredores, aos estacionamentos e \u00e0s luzes artificiais, havia duas pessoas compartilhando presen\u00e7a.<\/p>\n<p data-start=\"4555\" data-end=\"4614\">Talvez essa seja uma das respostas poss\u00edveis aos Backrooms.<\/p>\n<p data-start=\"4616\" data-end=\"4651\">O oposto do vazio n\u00e3o \u00e9 a multid\u00e3o.<\/p>\n<p data-start=\"4653\" data-end=\"4666\">\u00c9 o encontro.<\/p>\n<p data-start=\"4668\" data-end=\"4740\">Os Backrooms nos mostram corredores infinitos onde ningu\u00e9m nos encontra.<\/p>\n<p data-start=\"4742\" data-end=\"4862\">A vida real, \u00e0s vezes, nos oferece um banco diante de um pr\u00e9dio vazio e duas pessoas lembrando que ainda existe v\u00ednculo.<\/p>\n<p data-start=\"4864\" data-end=\"4954\">Ao final daquela madrugada, fiquei com a sensa\u00e7\u00e3o de que o filme havia extrapolado a tela.<\/p>\n<p data-start=\"4956\" data-end=\"5000\">Os corredores continuaram no shopping vazio.<\/p>\n<p data-start=\"5002\" data-end=\"5037\">Na pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o silenciosa.<\/p>\n<p data-start=\"5039\" data-end=\"5064\">No estacionamento escuro.<\/p>\n<p data-start=\"5066\" data-end=\"5087\">Na cidade adormecida.<\/p>\n<p data-start=\"5089\" data-end=\"5119\">E talvez tamb\u00e9m dentro de mim.<\/p>\n<p data-start=\"5121\" data-end=\"5195\">Mas, diferente dos personagens perdidos nos Backrooms, eu tinha uma sa\u00edda.<\/p>\n<p data-start=\"5197\" data-end=\"5214\">Voltar para casa.<\/p>\n<p data-start=\"5216\" data-end=\"5407\" data-is-last-node=\"\" data-is-only-node=\"\">E levar comigo a lembran\u00e7a de que, por mais estranhos que sejam os corredores que atravessamos, a presen\u00e7a humana continua sendo uma das formas mais poderosas de encontrar o caminho de volta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era um s&aacute;bado frio em An&aacute;polis. 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