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Hibristofilia: Por Que Algumas Pessoas Se Sentem Atraídas por Criminosos?

A atração por criminosos, em especial os que cometeram atos violentos, intriga psicólogos, sociólogos e o público em geral. Conhecida como hibristofilia, essa condição ganhou atenção com casos de mulheres que se apaixonaram por assassinos em série, como Ted Bundy e Richard Ramirez. Mas o que leva alguém a desenvolver esse tipo de atração? A ciência tem algumas respostas.


O Que é Hibristofilia?

O termo hibristofilia vem do grego hybrizein (cometer ultraje) e philia (amor ou afinidade). Trata-se de um parafilias, ou seja, uma forma de excitação sexual ou afetiva por alguém que cometeu crimes graves, como homicídio, estupro ou abuso.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), a hibristofilia não é oficialmente listada como um transtorno específico, mas pode ser entendida dentro do espectro das parafilias quando compromete o funcionamento ou causa sofrimento clínico significativo.


Causas Psicológicas: O Que a Ciência Diz?

1. Desejo de Redenção ou Salvação

Muitas pessoas com hibristofilia relatam o desejo de “salvar” ou “curar” o criminoso. Isso remete a um mecanismo conhecido na Psicologia como projeção redentora — projetar no outro a própria necessidade de controle ou validação por meio da transformação dele.

📌 Caso famoso: Carol Ann Boone, que se envolveu com o serial killer Ted Bundy, casou-se com ele durante seu julgamento e acreditava em sua inocência até o final. Ela via nele algo “curável”.


2. Carência afetiva e necessidade de controle

Alguns estudiosos propõem que a hibristofilia pode estar ligada a vínculos traumáticos, onde a pessoa busca relacionamentos controláveis ou previsíveis. Um parceiro preso, por exemplo, oferece contato limitado, ausência de confronto físico, e dependência emocional — fatores que podem fazer pessoas inseguras se sentirem emocionalmente no controle.

🧠 Base científica: Estudos como os de Ramsland (2012) e Schmid (2005) apontam que algumas mulheres que se envolvem com criminosos têm histórico de relacionamentos abusivos, baixa autoestima e padrões de apego desorganizado.


3. Excitação pelo Perigo (Parafilia)

Para alguns indivíduos, o crime em si gera excitação. Isso está ligado a um comportamento parafílico, onde o estímulo sexual está associado a um comportamento socialmente desviante. A noção de que “ele matou por amor” ou “é perigoso, mas comigo é diferente” cria uma fantasia de exclusividade afetiva e intensidade emocional.

🧪 Estudo relevante: Sandnabba et al. (2002) exploraram parafilias em populações não-forenses e identificaram tendências associadas à excitação por submissão e dominação em contextos extremos, como o crime.


Tipos de Hibristofilia

  • Hibristofilia Passiva: A pessoa sente atração, mas não participa dos crimes. Ex: mulheres que escrevem cartas de amor a assassinos presos.

  • Hibristofilia Ativa: A pessoa participa, colabora ou até incentiva os crimes. Ex: Myra Hindley, cúmplice de Ian Brady nos assassinatos de crianças em Manchester.


Fatores Culturais e Midiáticos

A romantização de criminosos pela mídia — através de séries, filmes e documentários — pode reforçar fantasias e alimentar a hibristofilia. O caso de Richard Ramirez, conhecido como “Night Stalker”, é um exemplo: mesmo após cometer assassinatos e estupros, ele recebeu inúmeras cartas de fãs apaixonadas e chegou a se casar na prisão.

📺 Efeito do entretenimento: A série “You” da Netflix ou mesmo o fascínio em torno de “Dahmer” (2022) podem, sem intenção direta, reforçar ideias distorcidas sobre violência e erotismo.


Tratamento e Considerações Clínicas

A hibristofilia pode ser inofensiva em alguns casos (fantasias não atuadas), mas quando causa sofrimento ou leva a envolvimentos perigosos, é importante buscar ajuda profissional.

Abordagens terapêuticas incluem:

  • Psicoterapia cognitivo-comportamental (TCC): para reestruturar crenças disfuncionais sobre amor, perigo e controle.

  • Terapia de esquemas: útil em pessoas com histórico de abandono ou abuso.

  • Terapia de trauma: para tratar padrões de apego traumático e co-dependência emocional.


Conclusão

A hibristofilia não é apenas uma curiosidade psicológica, mas um fenômeno que mistura parafilia, traços de personalidade, dinâmicas de poder e influências culturais. Compreendê-la é fundamental para desmistificar o glamour perigoso que, muitas vezes, envolve figuras criminosas.


Referências Científicas e Acadêmicas

  1. Ramsland, K. (2012). Women Who Love Men Who Kill. Praeger.

  2. Schmid, D. (2005). Natural Born Celebrities: Serial Killers in American Culture. University of Chicago Press.

  3. Sandnabba, K. N., Santtila, P., Alison, L., & Nordling, N. (2002). “Demographics, sexual behaviour, and paraphilias in men referred for forensic psychiatric evaluation.” Nordic Journal of Psychiatry, 56(5), 321–326.

  4. Petrescu, R. M., & Popescu, C. A. (2016). “Hybistophilia – love of criminals or a form of sexual paraphilia?” Journal of Education, Society and Behavioural Science, 17(3), 1–8.

  5. Mitchell, H. & Aamodt, M. G. (2005). “The Incidence of Female Sexual Attraction to Serial Killers.” Journal of Police and Criminal Psychology, 20(1), 40–51.